sexta-feira, 17 de abril de 2009

qualquer coisa para o blogue

rais parta a cena pá,

o quê,

rais parta isto tudo,

estás assim por causa da chuva,

não, não sei, também é da chuva mas não sei, é coisas às vezes dentro da gente parece que a aproximarem-nos de uma loucura, mais ou menos como aquela que se encontra em ler certos romances,

caramba, descontrai, inda noutro dia falavas de franzir sobrolhos e daquelas unhas postiças que há para as moças que querem ser glamorosas,

eu não falei de nada disso, dos sobrolhos falei, das unhas não, pelo menos não me lembro,

não interessa, vê lá se aranjas outra cara pá,

isso ajuda muito,

escreve alguma coisa para o blogue,

que se lixe o blogue, não tenho nada para dizer,

então escreve a dizeres isso,

para quê,

a ver se a chuva pára, ao menos a pessoa vai dar uma volta e espairece, olha podias escrever sobre o verbo espairecer, é engraçado, eu espaireci tu espaireceste, já tenho espairecido, actualmente espaireço pouco mas espairecerei mais em breve, não achas isto giro,

é capaz, tu com essa inspiração,

estás a ser irónico,

é que podias escrever qualquer coisa, dou-te a password do blogue e se quiseres vais lá postar isso que estás a dizer que a mim não me apetece.

terça-feira, 17 de março de 2009

see you around jeff

uma vez ia o jeff buckley com um amigo numa noite de agradável luar. diz o amigo: então ó jeff, pás, quando é que o álbum novo fica pronto? responde o jeff: sabes como é, isto um gajo nunca está satisfeito, já tinha as coisas praticamente acabadas mas resolvi entretanto fazer do início, já tenho quase metade e agora é mesmo para valer.

o álbum ia chamar-se my sweetheart the drunk mas nunca chegou a sair porque o jeff entretanto olhou para o rio e disse: ouve lá, isto está porreiro era para dar umas braçadas. o amigo tentou dissuadi-lo que tinham bebido uns copos e a água estava fria mas ele não fez caso e lá se deitou ao rio nadando e cantarolando "whole lotta love". terão sido as suas últimas palavras. o corpo viria a ser encontrado uma semana depois.

para a posteridade ficam, além do que tinha sido editado em vida, os álbuns póstumos (que entretanto são muitos), em especial sketches for my sweetheart the drunk (aproximação a um álbum inacabado).

see you around jeff.

domingo, 15 de março de 2009

rugas de expressão verbal (adenda)

fui alertado para o facto de o verbo franzir ter outro uso (apesar de menos corrente que o do sobrolho): a aplicação na costura, como em franzir uma bainha.

(segue-se o puxar da brasa à minha sardinha a ver se ainda consigo um bocadinho de razão)

de qualquer modo, poucos são os que alguma vez franziram uma bainha, enquanto que o sobrolho é franzido diariamente por milhões de pessoas em todo o mundo.

sexta-feira, 13 de março de 2009

orsa nueles

a propósito das inovações formais que serviram a criatividade do seu citizen kane, disse orson wells algo parecido com isto: "eu fiz assim porque não sabia que não se podia fazer". aí estará metade do necessário para o génio, a outra metade será a ciência de fazer bem aquilo que não se podia, ou seja, utilizar a ignorância com sabedoria.

sábado, 7 de março de 2009

rugas de expressão verbal

o verbo franzir costuma andar agarrado ao sobrolho ou à sobrancelha (que é sensivelmente a mesma coisa). calculo (não me dei ao trabalho de investigar) que já tenha existido noutras utilizações correntes. mas, pelo que me parece, é agora escravo semântico da dita sobrancelha.

há pessoas que fazem cirurgias plásticas para remover o músculo responsável pelo franzir do sobrolho, reduzindo assim as nocivas rugas causadas por esta acção. quanto a mim, hei-de continuar a expressar nesse pequeno gesto a minha suspeita ou o meu espanto quando for caso disso. é que dá-me a sensação que alguma importância há-de ter o sobrolho e o seu franzir, pelo menos a suficiente para ter ganho um verbo só para si.

quinta-feira, 5 de março de 2009

a bateria do mp3

ia eu no carro a ouvir uma cantiga do james yorkston chamada tender to the blues, quando acaba a bateria do meu mp3.

mudei para a rádio mas a música comercial durante a tarde é uma coisa de tal maneira desoladora que desliguei o som e passei a ouvir os barulhinhos do carro (com a idade os carros vão ganhando ruídos apesar de tudo mais interessantes que a byoncé ou os per7ume (per-sete-ume?)).

e na falta de outras distracções, vai a minha memória (suponho que ao acaso) buscar uns desenhos animados que eu via quando era petiz - o he-man - masters of the universe. lá vou eu agora ao volante a pensar no he-man e no seu arqui-rival skeletor. não me recordo bem do aspecto, apenas que era uma coisa bruta e decerto mal feita. recordo-me sim do sentimento de ver aquilo, e especialmente da pica que me dava haver lá um tipo chamado skeletor (talvez por causa de uma voz profunda que ele tinha e da maneira poderosa como se apresentava), isso é que era cool.

pus-me então a pensar que na infância há um constante fascínio, porque há muitas coisas novas a aparecer. e à medida que o tempo passa, o fascínio do novo vai sendo atenuado pela persistência do velho, a gente acostuma-se às coisas e torna-se mais difícil sentirmo-nos entusiasmados. enquanto crescemos, não precisamos de andar um centímetro para que algo nos puxe o interesse, nos espevite a curiosidade. depois cada vez mais é necessário mover esforços para ir buscar isso.

de maneira que é importante conservar a curiosidade e não a deixar obedecer à ordem de despejo que a idade e a sociedade adulta querem impor-lhe. ganhar espaço, ampliar o pensamento, estar disposto a receber o novo, talvez ainda mais importante, estar disposto a rever o velho (a palavra renovar deve significar algo parecido).

entretanto cheguei ao meu destino e pensei que às vezes é bom que se acabe a bateria do mp3.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

diálogo de génios

- escuta lá, tu és capaz de aparecer aí com uma ideia bem parva?
- mas parva como?
- muito parva, é que preciso de apresentar uns projectos de obras.
- isso é fácil, espera lá. já sei uma, era assim... não, esta não é parva. não pode ser uma coisa inteligente que desse jeito às pessoas?
- nem pensar nisso, era o que faltava agora ideias inteligentes.
- eh pá mas ideias parvas se calhar é mais difícil do que parece.
- eu sei, por isso é que te chamei.
- obrigado. olha, já sei, podemos esburacar um bocado as estradas.
- não me parece, isso já se vê muito.
- então e esta: a gente mandava subir as passadeiras.
- como?
- tás a ver as passadeiras para os peões? punha-se isso pra cima.
- pra cima?
- tipo fazia-se uma espécie de lomba da passadeira, um degrauzinho para os carros subirem e descerem.
- ah tou a ver, sim senhora, essa parece bastante parva.
- se as subirmos o suficiente, aquilo pode dar para irritar os condutores, além de que dá cabo dos carros e tem efeitos a longo prazo na coluna das pessoas, e mais, se alguém for atropelado na passadeira, como aquilo está subido, o carro apanha-lhe na região lombar e manda-os logo pró galheiro.
- ui, isso já são filosofias a mais. mas para mim é parva que chegue. vamos lá apresentar a coisa, pode ser que tenha pernas para andar.