sexta-feira, 13 de março de 2009

orsa nueles

a propósito das inovações formais que serviram a criatividade do seu citizen kane, disse orson wells algo parecido com isto: "eu fiz assim porque não sabia que não se podia fazer". aí estará metade do necessário para o génio, a outra metade será a ciência de fazer bem aquilo que não se podia, ou seja, utilizar a ignorância com sabedoria.

sábado, 7 de março de 2009

rugas de expressão verbal

o verbo franzir costuma andar agarrado ao sobrolho ou à sobrancelha (que é sensivelmente a mesma coisa). calculo (não me dei ao trabalho de investigar) que já tenha existido noutras utilizações correntes. mas, pelo que me parece, é agora escravo semântico da dita sobrancelha.

há pessoas que fazem cirurgias plásticas para remover o músculo responsável pelo franzir do sobrolho, reduzindo assim as nocivas rugas causadas por esta acção. quanto a mim, hei-de continuar a expressar nesse pequeno gesto a minha suspeita ou o meu espanto quando for caso disso. é que dá-me a sensação que alguma importância há-de ter o sobrolho e o seu franzir, pelo menos a suficiente para ter ganho um verbo só para si.

quinta-feira, 5 de março de 2009

a bateria do mp3

ia eu no carro a ouvir uma cantiga do james yorkston chamada tender to the blues, quando acaba a bateria do meu mp3.

mudei para a rádio mas a música comercial durante a tarde é uma coisa de tal maneira desoladora que desliguei o som e passei a ouvir os barulhinhos do carro (com a idade os carros vão ganhando ruídos apesar de tudo mais interessantes que a byoncé ou os per7ume (per-sete-ume?)).

e na falta de outras distracções, vai a minha memória (suponho que ao acaso) buscar uns desenhos animados que eu via quando era petiz - o he-man - masters of the universe. lá vou eu agora ao volante a pensar no he-man e no seu arqui-rival skeletor. não me recordo bem do aspecto, apenas que era uma coisa bruta e decerto mal feita. recordo-me sim do sentimento de ver aquilo, e especialmente da pica que me dava haver lá um tipo chamado skeletor (talvez por causa de uma voz profunda que ele tinha e da maneira poderosa como se apresentava), isso é que era cool.

pus-me então a pensar que na infância há um constante fascínio, porque há muitas coisas novas a aparecer. e à medida que o tempo passa, o fascínio do novo vai sendo atenuado pela persistência do velho, a gente acostuma-se às coisas e torna-se mais difícil sentirmo-nos entusiasmados. enquanto crescemos, não precisamos de andar um centímetro para que algo nos puxe o interesse, nos espevite a curiosidade. depois cada vez mais é necessário mover esforços para ir buscar isso.

de maneira que é importante conservar a curiosidade e não a deixar obedecer à ordem de despejo que a idade e a sociedade adulta querem impor-lhe. ganhar espaço, ampliar o pensamento, estar disposto a receber o novo, talvez ainda mais importante, estar disposto a rever o velho (a palavra renovar deve significar algo parecido).

entretanto cheguei ao meu destino e pensei que às vezes é bom que se acabe a bateria do mp3.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

diálogo de génios

- escuta lá, tu és capaz de aparecer aí com uma ideia bem parva?
- mas parva como?
- muito parva, é que preciso de apresentar uns projectos de obras.
- isso é fácil, espera lá. já sei uma, era assim... não, esta não é parva. não pode ser uma coisa inteligente que desse jeito às pessoas?
- nem pensar nisso, era o que faltava agora ideias inteligentes.
- eh pá mas ideias parvas se calhar é mais difícil do que parece.
- eu sei, por isso é que te chamei.
- obrigado. olha, já sei, podemos esburacar um bocado as estradas.
- não me parece, isso já se vê muito.
- então e esta: a gente mandava subir as passadeiras.
- como?
- tás a ver as passadeiras para os peões? punha-se isso pra cima.
- pra cima?
- tipo fazia-se uma espécie de lomba da passadeira, um degrauzinho para os carros subirem e descerem.
- ah tou a ver, sim senhora, essa parece bastante parva.
- se as subirmos o suficiente, aquilo pode dar para irritar os condutores, além de que dá cabo dos carros e tem efeitos a longo prazo na coluna das pessoas, e mais, se alguém for atropelado na passadeira, como aquilo está subido, o carro apanha-lhe na região lombar e manda-os logo pró galheiro.
- ui, isso já são filosofias a mais. mas para mim é parva que chegue. vamos lá apresentar a coisa, pode ser que tenha pernas para andar.

sábado, 24 de janeiro de 2009

não tem jeito nenhum

na semana passada morreu o joão aguardela, um tipo interessante e inventivo neste portugal e neste mundo às vezes meio monótono.

não é triste que fico nem com pena nem nada disso, fico fodido, chateado.

entre outros, o projecto megafone e a naifa parecem-me das coisas mais estimulantes na música portuguesa dos últimos tempos.

há uns anos, o aguardela foi responsável por esta cantiga que ficou no imaginário do pessoal da minha geração e arredores.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

figuras que uma pessoa faz

em conversa acerca de cinema, aconteceu falar-se do david lynch e eu, como de costume, nem ai nem ui. de maneira que queria deixar aqui esclarecido tudo quanto tenho a dizer sobre os filmes dele.

eu sou daquelas pessoas que gostam e muito do cinema do david lynch, se evito esse assunto é porque tenho medo de fazer as figuras que costuma fazer quem gosta e quem não gosta quando fala dele.

é este o meu ai e o meu ui ao mesmo tempo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

hora da noite

nesta hora a noite é escura,
o ritmo de pensar lento
numas frases se mistura
à sonolência; o vento

geme nas portas por fora,
a chuva cai sobre a rua
e por dentro escura a hora.
lenta mente, o sono actua.